Dor silenciada: por que as mulheres não conseguem romper o ciclo da violência doméstica

diario
Por diario
10 minutos de leitura

O aumento da violência contra a mulher no estado do Rio de Janeiro preocupa autoridades e especialistas. Dados do Dossiê Mulher, divulgado pelo Instituto de Segurança Pública (ISP), na semana passada, mostram que a taxa de feminicídio teve um aumento de 8% com relação a 2023. A violência psicológica foi o crime mais registrado contra mulheres em 2024, com 56.206 vítimas, uma média de 153 por dia. Esses números reforçam a urgência de medidas de prevenção, acolhimento e proteção.

O que define a violência e a repetição de padrões

“A violência é qualquer ação, comportamento ou omissão que cause dano físico, psicológico, sexual, econômico ou moral a outra pessoa. Pode ser exercida através de força, intimidação, manipulação, controle ou abuso de poder. A psicologia mostra que padrões de relacionamento aprendidos na infância podem ser repetidos na vida adulta, especialmente quando não há intervenção terapêutica”, diz a psicóloga Daiane Bocard, doutora em psicologia social.

O ciclo da violência e as barreiras para a denúncia

De acordo com ela, muitas mulheres acreditam que o agressor vai mudar ou sentem culpa pela situação.”O medo da retaliação é um dos maiores impeditivos. Ainda existe um julgamento social sobre mulheres que ‘permitem’ a violência, o que é injusto e psicologicamente devastador. Essa vergonha bloqueia pedidos de ajuda. A instabilidade econômica pode prender mulheres a relações abusivas, especialmente quando há filhos envolvidos. Além disso, agressores frequentemente isolam a vítima da família e amigos. Sem rede de apoio, é muito mais difícil pedir ajuda. Algumas mulheres acabam por normalizar a violência ou acreditar que ‘não é assim tão grave’. Este fenómeno é comum em situações prolongadas de abuso psicológico”, explica.

Dependência emocional e a ligação com o abuso

A psicóloga explica que muitas vezes a vítima não consegue denunciar por viver uma dependência emocional.”A dependência emocional é um padrão psicológico em que uma pessoa sente que precisa do parceiro para se sentir segura, valorizada ou completa. É como se o próprio bem-estar estivesse totalmente ligado à aprovação, presença ou afeto do outro. Isto pode levar a relações desequilibradas, sofrimento emocional e dificuldade em estabelecer limites. Não é o mesmo que ‘amar muito’. A dependência emocional está ligada à insegurança, medo e falta de autonomia, não ao afeto saudável”, alerta Daiane Bocard. Ela também explica que a dependência emocional e o ciclo da violência estão profundamente ligados. Muitas vezes, um alimenta e reforça o outro, criando uma relação onde sair se torna cada vez mais difícil.

Como funciona o ciclo da violência

Primeiro se instala o aumento da tensão, com críticas, controle, ciúmes, hostilidade. Em seguida surge o ato de violência, com agressão física, psicológica, sexual ou econômica. Por fim a fase da ‘Lua de mel’, com pedidos de desculpa, promessas de mudança, carinho intenso.Daiane ressalta que apoiar uma mulher que vive em dependência emocional e está presa ao ciclo da violência exige cuidado, empatia e estratégias seguras.

De acordo com ela, familiares e amigos que queiram ajudar devem agir sem aumentar o risco para essa mulher e sem fazer com que ela se afaste. Acompanhe algumas ações importantes comentadas pela psicóloga.Ouvir sem julgar: trocar falas como “mas é você que está permitindo isso” por “estou aqui para você, quando você precisar”. Validar os sentimentos dela: dizer, por exemplo, “Ninguém merece ser tratado assim”. Informar sem pressionar: “Quando você quiser, posso te ajudar a procurar apoio”. Reforçar a autoestima: lembrar qualidades e conquistas, incentivar atividades que a façam sentir-se forte e ajudá-la a retomar contatos com pessoas de confiança. Ajudar a procurar apoio de um profissional de saúde mental.

Empoderadas: uma abordagem integral no enfrentamento

O Empoderadas é um programa do Governo Estadual e da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj) que atua na prevenção e no enfrentamento da violência de gênero por meio de uma abordagem integral. A especialista em segurança feminina e coordenadora do programa, Érica Paes, explica que o objetivo central é salvar vidas, acolher, orientar e fortalecer mulheres para que elas rompam ciclos de violência com segurança.

“Trabalhamos a partir de quatro eixos: acolhimento multidisciplinar, tatame (técnicas preventivas), capacitação profissional e eventos ou ações de informação e mobilização. É uma atuação completa, que acompanha desde o primeiro acolhimento até a reconstrução da vida. De 2019 até hoje, o programa já atendeu mais de 2,5 milhões de mulheres diretamente”, afirma Érica.

Serviços oferecidos:

• Psicologia, com apoio emocional, redução de danos, fortalecimento da autoestima;
• Acolhimento jurídico levando orientação, acompanhamento de processos, medidas protetivas;
• Serviço social, com avaliação de risco, encaminhamento à rede de proteção e benefícios;
• Apoio de saúde, quando necessário;
• Tatame, ensinando técnicas preventivas e de segurança pessoal;
• Cursos e capacitação profissional, para que a mulher tenha autonomia econômica;
• Eventos e ações educativas, que informam, mobilizam e constroem redes de apoio. 

Não é preciso denunciar para ser acolhida

Érica explica que o Empoderadas atua de forma integrada com toda a rede pública, especialmente com as Delegacias de Atendimento à Mulher (Deams). Para as mulheres que ainda não tem coragem de denunciar, ela explica que o programa funciona para todas.

“A mulher não precisa denunciar para ser acolhida. Sabemos que denunciar é um passo difícil e que o medo, a vergonha, a dependência emocional ou financeira e as ameaças fazem parte do ciclo da violência. Por isso, o primeiro passo é simples: falar com a nossa triagem ou ir a um dos nossos polos. Ela será acolhida com sigilo, cuidado e respeito, sem julgamento”, orienta.

A atuação do Ministério Público

A promotora pública, subcoordenadora do Centro de Apoio das Promotorias de Violência Doméstica Contra a Mulher, Eyleen Marenco, fala sobre o atual momento, com o fenômeno do “backlash” e causas estruturais.

“O incremento da violência contra a mulher apresenta um conjunto de possíveis causas, entre elas o que chamamos de backlash, que é uma onda em sentido contrário, diante dos inúmeros avanços que estamos vendo, inclusive em nível legislativo, de proteção e de enfrentamento à violência contra as mulheres.Isso inclui, por exemplo, o agravamento da pena por feminicídio. É um movimento natural e esperado, porque faz parte dos ciclos de avanço e retrocesso”, explica Eyleen.

não vai bem. Barulhos de brigas ou lesões visíveis também merecem atenção. Mas como ajudar sem colocar a vítima em risco? O primeiro passo é garantir a segurança da mulher.

“Em casos graves, é fundamental acionar a Polícia Militar pelo 190. Além disso, é importante oferecer apoio emocional, incentivar a busca por atendimento médico ou psicológico, acompanhar a mulher à delegacia ou defensoria pública, e informar sobre a possibilidade de solicitar medidas protetivas, que obrigam o agressor a manter distância física e de contato”, explica Rebeca.

Onde Buscar Ajuda (canais de atendimento)

Se você está enfrentando alguma situação de violência ou conhece alguém que precisa de apoio, existem canais seguros e especializados disponíveis:

Em situações de emergência, ligue 190 (Polícia Militar), garantindo atendimento imediato e proteção.
Governo do Estado do Rio de Janeiro
Empoderadas – Programa do Governo do Estado do Rio de Janeiro
WhatsApp: 21 97316-7488
Instagram: @empoderadas.rj

Centro de Apoio Operacional das Promotorias de Justiça de Combate à Violência Doméstica e Familiar Contra a Mulher – CAOPJVD
(21) 2550-7298
caopjvdf@mprj.mp.br

Ouvidoria da Mulher do Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro: Disque 127

Secretaria Municipal de Políticas para a Mulher
Centro de Atendimento à Mulher em Situação de Violência (CEAM) – Chiquinha Gonzaga
Endereço: Rua Benedito Hipólito, 125, Centro
Telefone: 21 2517-2726 / 21 98555-2151
E-mail: cian.spmrio.com
CEAM – Tia Gaúcha, Santa Cruz
Endereço: Rua Álvaro Alberto, 601, Santa Cruz
Telefone: 21 97092-8071
E-mail: ciantiagaúcha@gmail.com
Núcleo Especializado de Atendimento Psicoterapêutico (NEAP) – Chiquinha Gonzaga, Centro
E-mail: neapchiquinhagonzaga@gmail.com
NEAP – Tia Gaúcha, Santa Cruz
E-mail: neaptiagaúcha@gmail.com
Plataforma Mulher Rio
www.mulher.rio- Orientação, escuta e encaminhamento para serviços de acolhimento.

Fonte: Jornal O Dia

Compartilhe essa notícia