Há sonhos que esperam, não porque deixam de existir, mas porque a vida, às vezes, pede prioridade. Aos 54 anos, Núbia está prestes a concluir a graduação em Pedagogia e vive uma fase que, por muito tempo, parecia distante. Depois de adiar por cerca de quatro décadas o sonho de cursar uma faculdade, hoje ela escreve um novo capítulo da própria história como estagiária da Secretaria de Gestão de Pessoas, por meio do Programa Primeira Chance.
Casada, mãe de dois filhos e avó de três netos, Núbia precisou amadurecer cedo. Aos 14 anos, foi aprovada para estudar na então Escola Técnica Federal de Campos, atual Instituto Federal Fluminense (IFF). Pouco tempo depois, porém, perdeu o pai, vítima de um Acidente Vascular Cerebral (AVC), aos 45 anos.
Com a mãe viúva e com cinco filhos menores para criar, a prioridade deixou de ser a sala de aula. “Passei para a extinta Escola Técnica Federal de Campos, hoje IFF. Porém, não pude continuar, pois meu pai faleceu aos 45 anos, deixando minha mãe viúva com cinco filhos menores. Eu precisava ajudar minha mãe. Mesmo sendo adolescente, entendi que era preciso trabalhar para ajudá-la”.
Vieram os anos de trabalho. Atuou em fábrica de salgados, shopping, como cuidadora de idosos e acompanhante hospitalar, enquanto o sonho da graduação permanecia guardado, esperando o momento certo para florescer.
Esse momento chegou em 2022. Aos 50 anos, decidiu prestar o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) e vestibulares. Foi aprovada em Engenharia Ambiental, no IFF, e em Pedagogia, no Instituto Superior de Educação Professor Aldo Muylaert (Isepam). Escolheu seguir a profissão que sempre fez sentido para o coração.
Recomeçar, porém, não foi fácil. No primeiro período, sentiu-se deslocada entre colegas mais jovens e chegou a pensar em desistir. Foi o incentivo de uma amiga, que hoje considera uma irmã, que a fez seguir em frente.
Os desafios continuaram. Durante a graduação, conciliou aulas à noite, estágio obrigatório, estágio remunerado e a rotina familiar. Em 2023, enfrentou o diagnóstico de trombose do marido. No ano seguinte, precisou lidar também com o transtorno de ansiedade generalizada dele.
Mesmo diante das dificuldades, escolheu continuar. Em agosto de 2025, conheceu o Programa Primeira Chance por meio de colegas da faculdade, participou do processo seletivo para estágio em Pedagogia e conquistou o primeiro lugar.
Hoje, atua na Secretaria de Gestão de Pessoas e Governança Digital, no setor responsável pelos estágios obrigatórios, colocando em prática os conhecimentos adquiridos na graduação.
“Sempre me senti acolhida. Gosto de lidar com pessoas, pois minha área é a de Humanas. No Programa Primeira Chance estou aprendendo, na prática, o que é gestão de pessoas. Trabalho na área de estágio obrigatório, em um setor ligado à Educação, onde tenho aprendido muito. Tenho certeza de que essa experiência será um diferencial para minha carreira profissional”, afirmou.
Para Núbia, a oportunidade representa muito mais do que uma bolsa de estágio. “Estar dentro da Prefeitura é a realização de um sonho. Não apenas pela bolsa, mas por abrir caminhos para novos conhecimentos. A Pedagogia é uma área muito ampla e, a cada dia, tenho mais certeza de que fiz a escolha certa”.
Com a formatura prevista para agosto deste ano, ela encerra um ciclo iniciado quatro décadas depois do que imaginava, mas exatamente no tempo em que decidiu acreditar novamente em si mesma.
Hoje, faz questão de compartilhar uma mensagem para quem acredita que o tempo passou. “Nunca é tarde para realizar seus sonhos. Acredite primeiro em Deus e, depois, em você. Idade é apenas uma questão de número”, declarou Núbia.
Aprender não tem idade
A história de Núbia representa um dos propósitos do Programa Primeira Chance: ampliar oportunidades para estudantes de diferentes perfis e aproximá-los da prática profissional. Atualmente, o programa reúne 255 estagiários de diversos cursos, distribuídos entre secretarias, fundações e autarquias do município.
Segundo a gerente de Educação Corporativa e responsável pelo programa, Jamile Cristine, a presença de estudantes de diferentes gerações fortalece o ambiente de trabalho e reforça que o aprendizado é um processo contínuo.
“A presença de estudantes com 50 anos ou mais no programa de estágio reforça que o aprendizado é um processo contínuo e que nunca é tarde para investir em novos conhecimentos, construir uma nova trajetória profissional ou realizar um sonho”.
Para ela, a convivência entre diferentes gerações beneficia todos os envolvidos. “Enquanto os estudantes mais jovens trazem novas perspectivas, familiaridade com tecnologias e diferentes formas de aprender, os estagiários com mais experiência e vivências contribuem com maturidade, responsabilidade e habilidades desenvolvidas ao longo da vida. Essa convivência fortalece o respeito às diferenças, amplia o diálogo, estimula a colaboração e promove um ambiente mais humano, inclusivo e inovador. Todos aprendem e todos ensinam”.
Ao incentivar a participação de estudantes de diferentes faixas etárias, a Prefeitura reafirma seu compromisso com a inclusão, a diversidade e a formação de profissionais preparados para os desafios do serviço público.
Depois de esperar cerca de 40 anos para voltar à sala de aula, Núbia descobriu que alguns sonhos não têm prazo de validade. Eles apenas aguardam coragem, oportunidade e o momento certo para florescer.
